Nosferatu de F. W. Murnau é um clássico do expressionismo alemão e um marco do terror no cinema. Minha relação com esse filme já é de longa data: assisti-o pela primeira vez há alguns anos quando tinha, se me recordo bem, 15, 16 anos, e não tive uma experiência muito boa na época. Achei o filme chato por ser mudo e fiquei com sono. Abandonei-o no começo do terceiro ato. Porém, as cenas do Conde Orlok, o vampiro, me perseguiram e continuaram fixas em minha mente como quadros sombrios. Quando pensava em vampiros, pensava, exclusivamente, no Conde Drácula, mas era a imagem do Conde Orlok espreitando na escuridão com sua postura ereta e travada e seus olhos arregalados que me ocorria.
Agora, já adulto, decidi revisitar essa obra e, surpreendentemente, tive uma experiência muito melhor da que tive durante a adolescência. O longa, como um todo, é fantástico, e a sua história de bastidores é interessantíssima! "Nosferatu" nada mais é do que uma adaptação ilegal do romance clássico de Bram Stoker, Drácula, do qual eu sou um grande fã. Na época do filme, 1922, o livro ainda não tinha domínio público na Alemanha (país em que o filme foi concebido). O roteirista Henrik Green e Murnau alteraram os nomes dos personagens do livro, mas a essência do romance permaneceu.
Thomas Hutter (Gustav von Wangeheim), um corretor de imóveis, viaja para uma região isolada da Transilvânia para o castelo do Conde Orlok (Max Schrek), um homem excêntrico e enigmático, afim de lhe vender um castelo. Orlok acaba descobrindo que Hutter é casado com uma mulher chamada Ellen (Greta Schröder) e fica obcecado por ela. Ele acaba aprisionando Hutter em seu castelo e viaja para cidade fictícia de Wisborg, Alemanha, afim de encontrar Ellen.
Se tratando de um filme mudo da década de 1920, os recursos cinematográficos ainda eram escassos se comparados aos tempos atuais. Mas isso não impediu os cineastas da época de criarem obras inventivas e influentes. Murnau, por exemplo, soube usar planos estáticos que capturassem toda a ação de uma cena usufruindo bem da fotografia preto e branco marcante do cinegrafista Fritz Arno Wagner, criando assim, belas composições visuais onde prevalece uma atmosfera sombria que flerta diretamente com o gótico.
Há um belo enquadramento que ilustra muito bem toda essa inspiração pelo gótico no terceiro ato quando a esposa de Hutter, Ellen, está sentada em um banco de madeira na praia vestida de preto, cercada por cruzes fincadas na areia, admirando o mar, ansiando pelo seu marido. É uma composição belíssima e angustiante ao meu ver! Há também todas as sequências horripilantes do Conde Orlok onde Murnau enquadra com perfeição a figura macabra e iponente do vilão. Max Schrek dá um show de atuação com sua maquiagem impecável com garras ameaçadoras e orelhas semelhantes às orelhas de morcegos; seus olhos fundos e escuros com olhares hipnóticos e sobrancelhas grossas e franzidas: um visual marcante! Sua atuação corporal com postura rígida e travada cai bem ao personagem e passa um sentimento muito forte de desconforto.
Murnau também faz um uso interessante de sombras para criar sequências lúgubres, como a cena horripilante do Conde Orlok subindo as escadas projetando sua sombra disforme com a garra apavorante na parede.
As atuações, no geral, são cômicas e teatrais. É de fácil compreensão, até porque, a maior parte dos filmes da época possuíam esse arquétipo. Achei tosco na primeira vez que assisti o filme, mas agora, assistindo-o com outros olhos, conclui que essas atuações funcionam muito bem e algumas impressionam até hoje como é o caso de Greta Schröder como Ellen. Ela transmite toda a angústia de estar longe e sem notícias do marido e também o medo da ameaça do Conde Orlok. Suas expressões me comoveram e me sensibilizei com todo a sua tristeza estampada no rosto pálido.
Os dois primeiros atos não possuem dificuldade alguma para estabelecer a trama e seus personagens, detalhando o suficiente e construindo a relação de Hutter com o Conde Orlok. No terceiro ato, Henrik Green trabalha com maestria todo o senso de perigo iminente da chegada do Conde Orlok na cidade de Wisborg e todo o frenesi que ele causa. Fiquei pasmo com o nível de efetividade que a ameaça do vampiro representa dentro do contexto da trama. É um recurso narrativo executado com uma excelência atemporal!
A trilha sonora orquestrada impulsiona a trama e cria energia e tensão necessária para o desenrolar das cenas. Fiquei encantado com a escolha de usá-la também como recurso sonoro para criar uma imersão bastante inventiva: a cena do relógio despertando Hutter no castelo do Conde Orlok, onde só ouvimos o barulho provocado pelo relógio a partir de um instrumento; a cena do quinto ato em que um mensageiro está caminhando por uma rua vazia de Wisborg tocando tambor anunciando a chegada de uma doença e, curiosamente, ouvimos esse tambor ressoar graças à trilha. É um conjunto de ideias que me deixaram impressionado!
Que bom que dei mais uma chance para "Nosferatu". Estou encantado pelo filme e por todo o cuidado que Murnau e sua equipe tiveram ao realizar essa obra que inspira o horror de um jeito tão belo e profundo.
★★★★★



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