Conta Comigo foi uma recomendação de minha mãe há um bom tempo atrás. Eu devia ter 9 ou 10 anos quando assisti ao filme. Me lembro de pedir para o meu pai arrumá-lo para mim. E ele o fez. Assisti-o numa manhã de sábado sozinho. Fiquei impressionado com a história, com aquele grupo de amigos, crianças, assim como eu, mas que fumavam e falavam tanta besteira quanto eu.
E durante essa parte da minha vida, o filme se solidificou no meu imaginário como um filme indispensável. Assisti-o várias vezes, e cada vez que o assistia, ficava ainda mais encantado com a riqueza daquele roteiro tão singelo.
Mas eu cresci e passei a me interessar por outras coisas, outros tipos de histórias, e o filme meio que ficou escondido num canto escuro de minha mente.
Algum tempo depois, em 2013, eu já tinha 12 anos, descobri que Conta Comigo era uma adaptação de um conto de Stephen King chamado O Corpo, publicado num livro/compilado: Quatro Estações. Eu já conhecia o autor e sabia da sua importância para a literatura, mas nunca tinha lido um livro dele. Tinha acabado de me mudar para outra escola, um momento muito importante de minha vida. Nessa escola, havia uma biblioteca, a biblioteca mais incrível que já tive o prazer de entrar. Me lembro de entrar nela logo no primeiro dia de aula. Encontrei tantos livros que queria levar todos para casa e lê-los numa taca só! E foi numa sessão, logo na primeira prateleira de frente para a porta, que encontrei uma sessão dedicada só a livros do Stephen King. Havia O Iluminado, Carrie, A Estranha, Christine, Louca Obsessão e, para a minha surpresa, Quatro Estações. Fiquei alucinado quando o encontrei. Fui com ele até o balcão na esperança de levá-lo para casa logo naquele dia, mas a bibliotecária falou que eu teria que fazer uma fixa primeiro e demoraria um pouco. Fiquei chateado, mas fiz a fixa. Tive que esperar algumas semanas até me estabelecer na escola e a fixa ficar pronta, mas, no dia que ela ficou, levei o livro para casa.
Eu não li todos os contos de Quatro Estações, li apenas aquele que me interessava: O Corpo. Achei-o sombrio demais, e não encontrei a leveza e o tom um tanto quanto despretensioso do filme no livro como esperava. Mas foi uma experiência interessante pelo que me lembro e, hoje em dia, acredito que a essência do conto está presente no filme de maneira aperfeiçoada. Como já conhecia Stephen King e já tinha assistido vários filmes baseados em suas obras, devolvi Quatro Estações e peguei Carrie, A Estranha para ler... mas essa já é outra história.
Agora, aos 22 anos de idade, sou um garoto (sim, um garoto, não um homem) amaldiçoado, no bom sentido, por todas as obras que consumi do Stephen King ao longo dos anos, e acredito que aprendi bastante com toda a humanidade, a sinceridade e a lealdade que enxerguei nos personagens de Gordie e Chris (interpretados com excelência por Will Wheaton e River Phoenix) e em sua amizade tão comovente. Assisti Conta Comigo recentemente depois de anos sem assisti-lo e, quando os créditos começaram a subir e a maravilhosa canção "Stand by Me" de Ben. E. King começou a tocar, lágrimas me vieram aos olhos.
A alma do filme está no elenco mirim formidável: Will Wheaton, River Phoenix, Corey Feldman e Jerry O'Connell. Eles formam um grupo de amigos que passam o tempo em uma casa na árvore jogando cartas e fumando cigarros na pequena cidade de Castle Rock, Maine, uma cidade fictícia recorrente nas obras de Stephen King. Eles ficam sabendo sobre o corpo de Ray Brower, um garoto que desapareceu nos arredores da cidade após sair para pegar jabuticabas. Movidos pela curiosidade cega e a certeza de que aparecerão no noticiário com fama de heróis, eles decidem ir procurar pelo corpo. Mas a gangue de bullys liderada por um jovem Kieffer Sutherland, também está à procura do corpo de Ray.
O roteiro fica dividido entre esses dois núcleos: o grupo das crianças e a gangue de bullys. Ambas tem um bom desenvolvimento e o senso de ameaça que a gangue de bullys passa é bem trabalhado. Kieffer Sutherland como Ace Merril é tão assustador e imprevisível como seu papel como, olha só, líder de uma gangue de vampiros rebeldes e sanguinários em Os Garotos Perdidos, que estreou um ano depois que Conta Comigo,1987. Mas o grupo de amigos liderados pelo carismático e leal Chris Chambers (River Phoenix) é o coração da história. Os quatro amigos são um bando de desajustados e todos possuem camadas. Gordie Lachance é o sonhador calado, o contador de histórias, assombrado pela morte do irmão mais velho, Denny. Ele é extremamente fiel a Chris, e o seu amor pelo amigo é crível e a amizade que os dois tem é tão palpável que chega a ser invejável. Teddy Duchamp, vivido por Corey Feldman, é o maluco da turma, com temperamento forte e devaneios momentâneos. Vern Tessio (Jerry O'Conell) é o alvo da maior parte das piadas da turma e o alívio cômico do filme assim como Teddy. A interação que esses personagens tem uns com os outros é deliciosa.
Os diálogos corriqueiros cheios de palavrões e piadas de garotos tornam as conversas mais naturais e nada parece ensaiado. A sequência da fogueira em que eles se questionam sobre que animal é o Pateta é genial. Quando você assiste Gordie, Chris, Teddy e Vern conversando, você está vendo crianças conversando e nada mais, nada menos, do que isso; chega a ser tão imersivo a maneira como essas cenas são filmadas e bem escritas, que você acaba sentindo como se estivesse sentado entre esses garotos se divertindo com eles. Todo o tratamento que esses atores deram para os personagens, especialmente Wheaton e Phoenix, é incrível.
Rob Reiner dirige com maestria grandes sequencias do filme e conduz a trama num ritmo bastante equilibrado sem torná-lo chato ou rápido demais. Há tantas cenas, tantos planos memoráveis que ficam presos à memória; a cena em que os garotos estão atravessando a ponte do trem é atemporal. Toda a tensão, o senso de perigo e o desespero ficam evidentes e criam um sentimento eloquente que eu nunca me esquecerei.
Campos largos e verdes cheios de vegetação com montanhas ao longe e trilhas desoladas atravessando florestas densas compõem uma boa parte do ótimo trabalho executado pela fotografia. Adoro a tomada em que mostra os garotos retornando para casa caminhando através de um campo florido, as partículas de pólen flutuando e enchendo a tela.
Eu me lembro de ter ficado apaixonado pela trilha sonora do filme na primeira vez que o assisti. Várias músicas clássicas dos anos 1950 (a maioria rock and roll) enriquecem as cenas: Great Balls of Fire de Jerry Lee Lewis, Whispering Bells do Del Vikings, Lollipop das Chordettes, Everyday de Buddy Holly and the Crickets e a clássica música tema, Stand by Me do Ben E. King. Todas são bem encaixadas e algumas são usadas até mesmo como recurso narrativo, sendo introduzidas na atmosfera de determinadas cenas como se estivessem sendo reproduzidas por um rádio.
Acredito que a gente pode ser moldado pelos filmes que assistimos em determinada época de nossas vidas. Conta Comigo possui um lugar especial no meu coração. Se eu fechar os olhos e pensar nele, consigo ver várias de suas cenas passando no telão da minha mente; consigo ouvir os conselhos cândidos de Chris Chambers (que eu carrego comigo até hoje), as piadas grotescas de Teddy Duchamp, as reclamações de Vern Tessio e, mais importante, o silêncio conturbado e melancólico de Gordie Lachance.
Mas também consigo ver a frase que o Gordie Lachance adulto escreve no desfecho do longa segundos antes de Stand by Me do Ben E. King começar a tocar: "eu nunca mais tive amigos como aqueles que tive aos 12 anos. Meu Deus, quem é que tem?"
★★★★★



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