Há 42 anos, um grupo de jovens ia para uma cabana isolada nas montanhas do Michigan curtir uma viagem e se deparava com um livro macabro e espíritos malignos. The Evil Dead (ou Uma Noite Alucinante - A Morte do Demônio), o filme de estreia do hoje renomado cineasta Sam Raimi, é um dos filmes de terror mais marcantes de todos os tempos e uma verdadeira estrela dourada dos filmes trash, que estabeleceu ideias originais que servem de influência para muitos filmes de terror até hoje, além de ter criado uma franquia famosa e conceber um dos personagens mais legais do cinema, Ash Williams, interpretado com maestria por Bruce Campbell.
Com um orçamento de 350 mil dólares no bolso e uma ideia genial reformulada através de um curta metragem de 32 minutos chamado Withing the Woods, Sam Raimi soube fazer um ótimo gasto dessa grana toda. Os recursos eram poucos, mas havia talento e muita paixão envolvidos. A câmera tremida concebe um charme eloquente para a trama muito bem conduzida. Há sequências em primeira pessoa que insinuam o olhar feroz do mal sempre à espreita na mata, esgueirando-se pelas árvores retorcidas numa velocidade às vezes frenética que te deixa sem fôlego. As tomadas inclinadas que criam um senso de desordem e os closes exagerados nos rostos dos atores que extraem toda a tensão e a loucura em meio ao caos sangrento instaurado dentro da cabana apertada se tornam engrandecidos pela trilha sonora enervante composta por violinos e pianos. A câmera não te poupa dos detalhes mórbidos das cenas repletas de violência extrema e gore, além de não perder uma oportunidade sequer de mostrar o sangue jorrando aos montes e tingindo rostos, vestes e paredes de vermelho.
The Evil Dead possui a essência de Withing the Woods, então muita coisa do curta serviu de base para o longa metragem. Algumas cenas foram modificadas, como a cena em que a irmã de Ash, Cheryl (Ellen Sandweiss), é perseguida na mata pelas árvores, que está presente no curta, embora não tão bem executada como no longa. Raimi soube expandir sua ideia e formulou um roteiro descompromissado cheio de boas sacadas. Há uma forte inspiração em H. P. Lovecraft e isso fica marcado não só pela existência do Necronomicon, O Livro dos Mortos, na trama, mas como também a gravação do antigo dono da cabana falando sobre sua descoberta maldita. Todo o seu jeito de narrar os acontecimentos remetem muito à um personagem escrito por Lovecraft narrando seus próprios horrores e descobertas. Esse recurso estabelece bem como funciona o livro e o que ele é capaz de fazer. O senso de perigo é muito bem trabalhado assim como a angústia e o horror. Os personagens possuem características distintas o suficiente para te fazer criar algum apego por eles, embora apenas três se destaquem quanto a esse recurso: Ash, Cheryl e Scott. Scott, interpretado por Richard DeManincor, é o falso protagonista e herói até a metade do segundo ato, quando toda a sua razão e coragem vão pelo ralo e Ash assume o protagonismo, abraçando toda a insanidade e euforia gerada pela situação surreal; um belo desenvolvimento de personagem, já que no começo do filme ele é contraído e medroso. Chega a ser cômico o quanto o roteiro abusa da sanidade do personagem, fazendo jorrar sangue nele em qualquer oportunidade, além de colocá-lo em situações inimagináveis requerendo decisões rápidas.
A fotografia passa todo um senso de isolamento e claustrofobia gerados pelos cômodos pequenos da cabana, onde tudo o que separa os personagens da floresta densa são tábuas de madeira. O granulado gera uma beleza absoluta para o filme, além de apresentar belos contrastes para as cenas filmadas no escuro. Percebe-se o quanto Raimi e sua equipe souberam aproveitar ao máximo os poucos recursos e a grana que tinham, criando um filme marcante em muitos sentidos.
Os efeitos práticos desse filme são bem toscos, mas possuem um certo charme. As maquetes do cenário são bem feitas e o visual dos jovens possuídos pelas entidades demoníacas são bem grotescos: a pele cheia de feridas abertas e carne putrefata, os olhos brancos levemente amarelados e os cabelos ensebados e grisalhos te passam toda a certeza de que não há mais nada a se fazer por eles a não ser seguir o conselho dado pelo antigo dono da cabana no gravador: o desmembramento dos corpos. O uso do gore é exagerado no bom sentido, já que o filme é autoconsciente quanto a isso, então ele não economiza em decapitações, membros e sangue voando para todos os lados. Há também o uso de stop motion numa sequência logo no final do filme, onde assistimos, sem pressa e com poucos cortes, o definhar dos corpos de Scott e Cheryl nos mínimos detalhes, gerando repulsa e desconforto.
Assim como O Exorcista, The Evil Dead também me metia muito medo quando eu era criança, mas a minha curiosidade sempre falou mais forte, então assistia mesmo assim e depois tinha dificuldade para dormir. Mas sempre gostei de experimentar assistir filmes de terror quando ficava sozinho. Hoje, revendo esse filme depois de tanto tempo, ao contrário de sentir medo, senti diversão, o que não deixa de ser uma coisa boa, embora eu sinta falta daquele medo que o meu eu criança sentia ao assistir esses filmes. O tom de The Evil Dead é certeiro e a originalidade presente em todos os aspectos desse filme são um verdadeiro assombro para mim.




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