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A Máquina do Tempo de H. G. Wells é um dos maiores clássicos da ficção científica, e assim como a adaptação de A Guerra dos Mundos de 1953 se imortalizou como um marco do gênero no cinema, o mesmo ocorreu com a adaptação de A Máquina do Tempo em 1960 pelas mãos de George Pal, que, coincidentemente, produziu Guerra dos Mundos. Nos anos 50, Hollywood estava bastante interessada em  ficção científica, e o público também. Isso se alastrou até a metade dos anos 1960, mas durante todo esse período, invasões extraterrestres, monstros e viagens espaciais consumiram as telas e devoraram o imaginário popular, em sua maioria, graças às obras de H. G. Wells. 

 George Pal, assim como Byron Haskin em Guerra dos Mundos e James Whale em O Homem Invisível (um clássico dos monstros da Universal), criou um longa épico com um visual bastante atraente e simpático; uma ficção científica misturada com aventura e tons comedidos de romance que o transformaram em um clássico absoluto do cinema.  

 O carismático inventor propositalmente nomeado pelo roteiro como H. George Wells vivido pelo incrível Rod Taylor cria um dispositivo que o permite viajar através do tempo e, dotado de auto confiança e uma curiosidade intensa de saber o que vem depois de seu tempo, ele viaja centenas de anos à frente e se depara com um futuro excêntrico. 

 Eu tenho um carinho muito grande por esse filme, e muito disso é graças à atuação super convincente e carismática de Rod Taylor. Seus sorrisos apaixonados acompanhados por um olhar sonhador que contemplam sua invenção e romantizam a sua própria ideia de viajar para o futuro a fim saber os avanços e as conquistas da humanidade e o êxito que a direção de George Pal tem ao capturar todos esses momentos com planos e enquadramentos certeiros sempre me cativaram. E Rod  já tinha alguma familiaridade com a ficção científica, até porque, protagonizou um dos episódios mais marcantes da primeira temporada de The Twilight Zone: And When the Sky Was Opened. Em A Máquina do Tempo ele está super à vontade em seu personagem, criando várias nuances que demonstram toda a sua diversão e comprometimento ao protagonizar essa obra. 

 O design de produção é belíssimo. Ele cria cenários ricos em detalhes a partir do bom uso dos recursos da época; a construção de mundo é profunda, talvez não muito convincente para os dias de hoje, mas mesmo assim é um fator notável. As cenas que se passam no vilarejo em que o personagem de Rod Taylor mora no começo do filme poderiam facilmente gerar cartões de natal, já que a cinematografia concebe um olhar atento aos detalhes das casas, ruas e árvores cobertas de neve, as luzes acesas criando uma atmosfera quase fantasmagórica e misteriosa. O design da máquina do tempo em si já é marcante o suficiente para torná-la um dos dispositivos de viagem no tempo mais memoráveis do cinema. A máquina é única e se difere de muitas que já vimos pelo seu visual estranho e, ao mesmo tempo, usual: se parece uma cadeira, ou melhor, um trenó, com um painel com botões e um mostrador colorido, e não se trata de algo sofisticado e nem um pouco complicado de se entender com detalhes que te deixam perdido. Não. A máquina é, de certa forma, compreensível e charmosa o suficiente para te fazer querer ter uma (nem que seja como enfeite). 

 Um outro visual muito marcante também é o dos vilões, os terríveis Morlocks, que nada mais são do que seres humanos que sofreram uma evolução hedionda, transformando-os em criaturas que habitam o escuro e temem a luz e praticam o canibalismo, manipulando outros seres humanos de maneira tanto direta quanto indireta, transformando-os em gado. Seus corpos são verdes, os cabelos brancos e longos, os olhos amarelos brilhantes e dentes que saltam para fora da boca. Quando era criança e assisti ao filme pela primeira vez, pensava que os Morlocks fossem alienígenas. A presença deles gera desconforto muito por causa de seu comportamento violento e seus olhos brilhosos. Um excelente trabalho de maquiagem, inclusive.

 O roteiro de David Duncan é bastante atencioso aos detalhes e amarra bem a trama. O primeiro ato poderia ser facilmente arrastado, visto que é composto por momentos de diálogos explicativos e falta de ação, mas eles (os diálogos) são bons o suficiente para causar imersão. A cena introdutória em que George Wells explica sua invenção para seus colegas é muito interessante e, graças à direção de George Pal, que captura muito bem a presença deles, a atuação formidável de Rod Taylor e o roteiro inteligente de Duncan, mergulhamos na cena, sendo preparados sem pressa para o feito impressionante da viagem no tempo, e quando ela acontece, contemplamos tudo com a mesma emoção que George; viajamos com ele para o futuro com incerteza, acompanhando todas as mudanças sofridas na civilização daquela região; vivenciando as terríveis guerras e a destruição causadas por elas; uma era de escuridão; um novo alvorecer para a humanidade: as flores se abrindo e a vegetação consumindo as ruínas com seu verde cintilante. Conhecemos o povo chamado de Eloi e ficamos agraciados com seu visual colorido e estranhamos seu estilo de vida alheio à quaisquer fundamentos, leis e ideologias políticas, e compartilhamos da revolta que o personagem de George tem diante da ignorância deles. Todo esse conflito é bem desenvolvido, culminando num confronto memorável com os Morlocks no final. 

 O trabalho da montagem nas cenas em que o tempo vai se desenrolando ao redor de George e da máquina do tempo é brilhante. Eu acho que nunca vi algo parecido no gênero; a falta de cortes e o uso de efeitos práticos como stop motion, que simulam flores se abrindo e se fechando e as janelas de vidro se quebrando, por exemplo, são coisas que ficaram imortalizadas em minha memória. 

 Se passou muito tempo desde que assisti ao filme, então reassisti-lo foi uma experiência gratificante para mim. É um sentimento tão bom quando descobrimos que a essência de algo que significa muito para a gente, seja um filme ou um livro, não se perde, tampouco se deteriora com o passar do tempo. A Máquina do Tempo é facilmente um daqueles filmes que me provocam mil sentimentos diferentes toda vez que eu assisto, exibindo o mesmo sorriso no rosto ao contemplá-lo como algo único. 


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