Eu sempre fui apaixonado por monstros e consumia diversos tipos de conteúdos relacionados a eles: gibis, livros e filmes, especialmente filmes. Os filmes de monstros da Universal sempre me chamaram a atenção, e quando conheci O Monstro da Lagoa Negra, fique super interessado, muito por conta do visual meio anfíbio, meio humano do monstro. Eu devia ter uns 15 anos quando assisti ao filme, e não me recordava de muita coisa até revisitá-lo hoje (15/11). É claro que guardava na memória uma coisa ou outra, como a aparência do monstro e determinadas cenas dele perseguindo a belíssima Julie Andrews. Mas fora isso, tudo parecia meio anuviado em minha memória.
Um pesquisador fascinado pela sua descoberta de uma nadadeira de um animal desconhecido na Amazônia o faz retornar para os EUA a fim de buscar financiamento para uma expedição de volta ao local, mas a equipe se depara com uma criatura aterrorizante.
É incontestável que o que torna esse filme marcante é o próprio Monstro da Lagoa Negra. Toda a sua maquiagem e figurino são muito bem feitos e atraentes e a direção de Jack Arnold consegue projetar bem sua ameaça aquática e eficiência ao nadar, além de criar composições visuais charmosas do monstro à espreita no fundo do lago. Suas motivações não são tão claras, mas pode-se ter uma ideia: ele não quer ser descoberto, tampouco incomodado, e o fato de ele estar sempre perseguindo Julie Andrews no filme, cria uma incógnita que, muito tempo depois, justifiquei a partir de um comentário que o cineasta Guilhermo Del Toro fez quando lançou seu clássico moderno The Shape of Water:
"A criatura tinha o design mais lindo que eu já vi. E eu o vi nadando sob a [atriz] Julie Andrews, e eu adorei que a criatura estivesse apaixonada por ela, e senti um desejo quase existencial de que eles terminassem juntos. Claro, isso não aconteceu."
Achei bela a interpretação de Del Toro na época e, na minha cabeça, esse pensamento acabou se enraizando na memória que eu tinha desse filme, e ao revê-lo agora, encontrei sentindo nele. É um complemento, sim, e dentro do contexto do filme, talvez até se encaixe, muito porque a composição visual de determinadas cenas dos dois (o monstro e a personagem de Andrews) exalam algum tipo de química improvável e, até mesmo, grotesca graças à cinematografia.
O roteiro é um misto de terror e aventura e é bastante centrado em seu objetivo de 1: mostrar a descoberta do pesquisador Carl Maia (Antonio Moreno); 2: iniciar a expedição; 3: desenrolar o confronto final com a criatura. Os três atos são apressados e não buscam desenvolver muito bem os personagens: a personagem de Julie Andrews, Kay, é a mocinha indefesa, e o roteiro só está preocupado em tratá-la como isso e nada mais, mesmo a atriz se esforçando para entregar algo a mais; Richard Carlson vive o par romântico de Kay, David, o herói da história, e possui uma rivalidade mal elaborada com Mark, vivido por Richard Denning, que entrega um bom papel como um antagonista com uma ambição cega capaz de pôr a todos em perigo. O personagem de Antonio Moreno, Carl, é completamente abandonado no segundo ato e no terceiro você até se esquece que ele existe, assim como metade dos figurantes, que, por sinal, são "brasileiros" fluentes em inglês. Os diálogos são ruins, cheios de exposições e explicações mastigadas; nada parece soar natural. Entretanto, há um monólogo muito bom que o personagem de Richard Carlson faz para o personagem de Richard Denning sobre os seres humanos quererem desbravar o espaço, com o olhar perdido no que há lá em cima, e se esquecerem de olhar para baixo, para as infinidades de criaturas que existem na terra.
A trilha sonora traduz bem o senso da ameaça do Monstro da Lagoa Negra, a melodia crescente simulando sua imponência quando na água, e a fragilidade, de certa forma, que exibe em terra.
O Monstro da Lagoa Negra é um filme divertido de monstro. Sua estrutura não é das melhores, mas o seu visual é válido, assim como a sua importância para o cinema de monstros é inquestionável, visto que, em meio a tantos monstros terrestres como Frankenstein, Drácula e o Lobisomem, faltava um ser aquático monstruoso.


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